domingo, 23 de agosto de 2015


                                   DO MATERIALISMO À CRENÇA NOS ESPÍRITOS

                                             Publicado na RIE em abril de 2015

                  Na Revista Espírita de Fevereiro de 1869 em “Um Espírito que julga sonhar” temos um caso curioso de comunicação mediúnica: um espírito que acredita estar ainda no corpo físico, mesmo tendo já desencarnado. Exemplos assim, não são incomuns, mas o que nos chama atenção neste caso, é a dificuldade do espírito em aceitar a sua nova situação, tanto é assim que acreditava estar vivendo um sonho, que logo despertaria outra vez para a vida material, a única forma que seria a verdadeira no seu entendimento.  Em certo momento tentaram persuadi-lo perguntando: “Onde está o vosso verdadeiro corpo? Não está aqui, pois não estais em vossa casa. Quando se sonha, está-se em seu leito. Ide, pois, ver em vosso leito se o vosso corpo lá está e dizei-nos como podeis estar aqui sem o vosso corpo? Perdendo a paciência por estas reiteradas perguntas, às quais apenas respondia pelas palavras: Efeitos bizarros dos sonhos...”. Nós sabemos que existem pessoas que não acreditariam mesmo que vissem (1), mas através da análise deste caso da Revista Espírita, nós entendemos que pode existir por certo tempo, pessoas tão presas a suas próprias convicções que não acreditariam em espíritos mesmo que elas próprias já estivessem no plano espiritual. É interessante a opinião do Espírito Erasto sobre o materialismo entre os espíritos, encontrada na Revista Espírita de maio de 1863 em “Questões e Problemas”: “Uma das condições de sua cegueira moral é de aprisionar mais violentamente nos laços da materialidade e, conseguintemente, de os impedir que se afastem das regiões terrestres ou similares à Terra. E, assim como a maioria dos desencarnados, cativos na carne, não pode perceber as formas vaporosas dos Espíritos que os cercam, também a opacidade do envoltório dos materialistas lhes impede a contemplação das entidades espirituais que se movem, tão belas e tão radiosas, nas altas esferas do império celeste”.
                  O que podemos aprender é que o apego pode ser extremo a determinadas visões de mundo, no caso, o ponto de vista materialista, onde os espíritos não podem existir de jeito nenhum. Se a crença nos espíritos é incômoda para alguns indivíduos, pasmem, mesmo após o desencarne, o que se dirá para eles durante a vida terrena. Isto revela a necessidade de inúmeras reencarnações para o espírito ou mesmo para populações inteiras até que se tornem mais simpáticos as concepções espiritualistas, porque o materialismo tem ainda a sua força de convencimento, entretanto, a crença nos espíritos faz parte de uma determinação maior chamada Lei do Progresso, são esclarecedoras as palavras de Kardec: “O homem não pode conservar-se indefinidamente na ignorância, porque tem de atingir a finalidade que a Providência lhe assinou. Ele se instrui pela força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram nas ideias pouco a pouco; germinam durante séculos; depois, irrompem subitamente e produzem o desmoronamento do carunchoso edifício do passado, que deixou de estar em harmonia com as necessidades novas e com as novas aspirações” (2).
                  Nota-se então que os acolhimentos de ideias progressistas, abrangidas aí à crença nos espíritos, estão todas incluídas num longo processo histórico onde a reencarnação toma papel fundamental por que através das reencarnações modificam-se as mentalidades.  Engana-se quem pensa que este processo não acontecerá, digo mesmo que já está acontecendo. O paradigma materialista, por exemplo, está enfraquecido com o próprio desenvolvimento da Ciência como nos mostra o Filósofo Nicola Abbgnano:  “o materialismo da metade do séc. XIX tem caráter romântico, pois não se limita a ser uma tese filosófica dotada de maiores ou menores possibilidades de confirmação, mas pretende ser doutrina de vida, destinada a vencer a religião e a suplantá-la. Essa pretensão confere a tais doutrinas um tom violentamente polêmico e profético, transformado a "Ciência" na nova tábua da verdade absoluta. Essa atitude recebeu o nome de cientificismo e constitui a vanguarda romântica da ciência do séc. XIX; o materialismo foi seu credo. Mas esse credo foi em parte destruído pela própria ciência, em virtude da crise de sua concepção mecanicista nos últimos decênios do séc. XIX”. Hoje a Física atual dá mais um golpe contra a concepção materialista quando afirma que  o Universo visível ou normal  é uma pequenina parte (cerca de 4 ou 5 %) de outro, invisível, composto basicamente por matéria e energia escura (3),  é útil lembrarmos a questão 22 do Livro dos Espíritos: “Mas a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil, que nenhuma impressão vos cause aos sentidos”. Outro exemplo, do enfraquecimento materialista, são os estudos da sobrevivência da alma nos meios acadêmicos, deslocando a questão para fora do âmbito religioso ou do espaço exclusivo da fé. Um exemplo desta pesquisa, entre outras semelhantes, saiu recentemente na imprensa: “Cientistas e pesquisadores holandeses publicaram estudo no qual revelam que nossas almas podem abandonar nossos corpos e observá-los. Foram mais de 70 casos estudados com pessoas que relataram experiências durante o período em que estiveram clinicamente mortas. O caso mais impressionante relatado pela pesquisa é de um paciente clinicamente morto por 20 minutos durante uma cirurgia cardíaca. Se sua volta à vida surpreendeu médicos, estes ficaram ainda mais perplexos quando ele descreveu que “saiu de seu corpo” e soube indicar precisamente a posição em que cada um dos médicos durante o período em que estava morto, além de fatos relevantes que aconteceram na sala”.
                  A aceitação da existência dos espíritos compreendidos como homens e mulheres desencarnados é um processo irreversível, porque os espíritos “constituem uma das potências da Natureza” (4) e são parte da realidade quer gostemos ou não.  É claro que, no processo da aceitação da sobrevivência da alma conforme a compreensão espírita, os opositores materialistas tentarão a todo custo, e enquanto for possível, entender a alma e suas manifestações como simples reações neurológicas. Mas os adversários não se encontrarão somente entre os materialistas, mas também no meio dos religiosos que defenderão as manifestações espíritas como maquinações do diabo, engodo, entre outras causas, mesmo as mais extravagantes, desde que seja afastada a tese espírita. Reflitamos, portanto, que o Espiritismo ainda terá uma longa trajetória pela frente, onde as ideias não espíritas procurarão se manter vivas a quem as tenham por fé religiosa, convicções materialistas ou por outras influências;  mas isto é compreensível, diante da  dificuldade em abandonar crenças religiosas ou não, profundamente enraizadas, ou quando o orgulho dificulte a mudança de opinião.
                  No longo processo de difusão do pensamento espírita os escolhos virão então por vários lados e se apresentarão de várias maneiras, de forma que os espíritas devem estar preparados.  Sobre isto é útil lembrar o que foi dito a Kardec, palavras encontradas em Obras Póstumas em “Minha Missão”: “Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos encarniçados se conjurarão para tua perda; ver-te-ás a braços com a malevolência, com a calúnia, com a traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados; as tuas melhores instruções serão desprezadas e falseadas...” Devemos ponderar em que medida estas palavras também dizem respeito a todos os espíritas. Professar ideias de vanguarda num mundo apegado a antigas tradições tem seu preço: preconceito, ironia, desconfiança e incompreensão, mas estejamos certos que esta fase passará, e até lá, podemos sim, reclamar o devido respeito por nossas ideias, mas não podemos exigir dos outros a compreensão do mundo que não possuem.
                  Para aqueles que têm fé verdadeira em Deus e nos postulados espíritas, a crença nos espíritos bem como a certeza da imortalidade, da reencarnação, da comunicação mediúnica e da justiça Divina se tornarão gerais, não importa o tempo que passe. Neste longo caminho, cada espírita é chamado a um propósito maior: “É chegada a hora em que deveis sacrificar à sua propagação os vossos hábitos, os vossos trabalhos, as vossas ocupações fúteis. Ide e pregai” (5), no entanto nem todos os espíritas permanecerão no caminho: “mas, atenção! entre os chamados para o Espiritismo muitos se transviaram; reparai, pois, vosso caminho e segui a verdade” (6), porém, “ditosos serão os que houverem trabalhado no campo do Senhor, com desinteresse e sem outro móvel, senão a caridade! Seus dias de trabalho serão pagos pelo cêntuplo do que tiverem esperado” (7).



(1) Questão 802 do Livro dos Espíritos
(2) Questão 783 do Livro dos Espíritos
(3) “Esse mundo faz parte do nosso sistema planetário? R– Sim; está muito próximo de vós. Entretanto, não podeis vê-lo, porque não tem luz própria e não recebe nem reflete a luz dos sóis que o rodeiam”. Segundo os cientistas, a matéria escura tem este nome porque não reflete e nem absorve a luz, será então o que o mundo descrito pelo espírito Alexandre de Humboldt em Conversas Familiares de Além-Túmulo na Revista Espírita de junho de 1859, é feito de matéria ou energia escura? Ou a matéria/energia escuras já são elementos do plano espiritual? Somente o futuro dirá.
(4) Introdução e questão 87 do Livro dos Espíritos
(5) e (6) Evangelho Segundo o Espiritismo em Missão dos Espíritas
(7) Evangelho Segundo o Espiritismo em Os Obreiros do Senhor




FAUSTO FABIANO DA SILVA


BIBLIOGRAFIA

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KARDEC, Allan. Revista Espírita. Fevereiro de 1869, Araras: Ed. IDE, 2001.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Maio de 1863, Araras: Ed. IDE, 2000.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Junho de 1859, Araras: Ed. IDE, 2001.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 67 ed. São Paulo: Ed. Lake, 2007.
KARDEC, Allan. Evangelho Segundo o Espiritismo. 85. ed. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1982.
KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 19 ed. São Paulo: Ide, 2004.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5. ed. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.







































JESUS, O MAIS PERFEITO MODELO.

                                                  Publicado na RIE de agosto de 2015               
                                   
                  Para a Doutrina Espírita, Jesus é o mais perfeito modelo para a humanidade terrestre (1) e por este motivo a presença deste espírito nas Letras da Codificação é obrigatória, não se tratando, a sua menção, de uma política de boa vizinhança com o Catolicismo do século XIX (2), escolha natural em um mundo cristão ou fruto da mentalidade cristã em Kardec ou nos Espíritos. Mas qual a base doutrinária para concluirmos que Jesus é o mais evoluído espírito que já encarnou? Modelo e guia pra toda a humanidade e por isto tão presente na Doutrina Espírita?
                Vamos começar com o pensamento do próprio Allan Kardec, que escreveu nos comentários a questão 625 do Livro dos Espíritos: “Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo (...) sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava”.   E no Livro A Gênese, publicado em 1868 encontramos no capítulo XI: “É igualmente com o objetivo de fazer que a Humanidade se adiante em determinado sentido que Espíritos superiores, embora sem as qualidades do Cristo, encarnam de tempos a tempos na Terra...”. Observamos que o primeiro trecho mostra de maneira clara que Kardec entendia Jesus como o mais evoluído espírito que já encarnou na Terra e no segundo trecho de 1868, tornar-se visível a continuidade deste pensamento mesmo passados mais de uma década do lançamento do Livro dos Espíritos. Mas porque razão Kardec pensava desta maneira? Três pensamentos do Codificador revelam a resposta a esta indagação, o primeiro pensamento diz respeito as faculdade ou poderes de Jesus para efetuar seus conhecidos prodígios: “De todas as faculdades que Jesus revelou, nenhuma se pode apontar estranha às condições da humanidade e que se não encontre comumente nos homens, porque estão todas na ordem da Natureza. Pela superioridade, porém, da sua essência moral e de suas qualidades fluídicas, aquelas faculdades atingiam nele proporções muito acima das que são vulgares”(3), a segunda reflexão faz referência à autoridade moral de Jesus para expulsar os espíritos inferiores:  “A subjugação corporal tira muitas vezes ao obsidiado a energia necessária para dominar o mau Espírito. Daí o tornar-se precisa a intervenção de um terceiro, que atue, ou pelo magnetismo, ou pelo império da sua vontade. Em falta do concurso do obsidiado, essa terceira pessoa deve tomar ascendente sobre o Espírito; porém, como este ascendente só pode ser moral, só a um ser moralmente superior ao Espírito é dado assumi-lo e seu poder será tanto maior, quanto maior for a sua superioridade moral, porque, então, se impõe àquele, que se vê forçado a inclinar-se diante dele. Por isso é que Jesus tinha tão grande poder para expulsar o a que naquela época se chamava demônio, isto é, os maus Espíritos obsessores” (4), e o terceiro pensamento sobre a influência moralizadora de Jesus: “Pelos imensos resultados que produziu, a sua encarnação neste mundo forçosamente há de ter sido uma dessas missões que a Divindade somente a seus mensageiros diretos confia, para cumprimento de seus desígnios”(5).
                    Se já não bastasse a lógica do raciocínio de Allan Kardec, para dar embasamento à crença na imensa superioridade de Jesus e tê-lo como modelo para a humanidade, ainda temos, a opinião dos próprios Espíritos, que sem dúvida trilham o mesmo caminho: “Um dia, Deus, em sua inesgotável caridade, permitiu que o homem visse a verdade varar as trevas. Esse dia foi o do advento do Cristo” (6), “O Cristo foi o iniciador da mais pura, da mais sublime moral, da moral evangélico-cristã, que há de renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los irmãos” (7); “Irmãos! nada perece. Jesus - Cristo é o vencedor do mal...” (8).  “todos quantos praticam a caridade são discípulos de Jesus...” (9).  “Estamos incumbidos de preparar o reino do bem que Jesus anunciou” (10).  Percebemos pela maneira como os Espíritos falam de Jesus, a autoridade deste espírito, o grau de abrangência de sua mensagem e o significado de sua encarnação, por isto, sua figura se impõe na conjuntura da História terrena, em consequência, não poderia estar ausente na Doutrina Espírita. Como se vê, o comentário de Kardec à questão 625 do Livro dos Espíritos, citada no início do texto, faz todo sentido.
                  O pensamento de Kardec e dos Espíritos em relação a Jesus estão corretos também, por uma característica do Espiritismo, que é tratar de problemáticas gerais, ou ter princípios universais (11). Esta vocação, de abranger toda a realidade do mundo, não poderia ser diferente quanto à moralidade. Desta maneira, os Espíritos ao conjecturarem sobre as Leis Divinas (12), escolheriam como referência, uma moral também abrangente, que incluísse toda a realidade e não somente o mundo ocidental, e apenas a moral de um espírito mais iluminado, com mais autoridade que os outros (13), teria esta natureza. Vale lembrar o pensamento de Kardec: “Em muitas circunstâncias, prova Jesus que suas vistas não se circunscrevem ao povo judeu, mas que abrangem a Humanidade toda” (14). Já dá para notar, como é equivocada a tese, por exemplo, que os Espíritos da Codificação, teriam citado Cristo, somente porque estes mesmos espíritos apresentariam a mente embebida no Cristianismo de suas reencarnações terrenas. Acreditar nisto é como um observador, que olha um grande lago e vê a apenas sua superfície, e tira por isto conclusões erradas, ignora, ou quer ignorar o que as profundezas poderiam lhe fazer conhecer.
                   Por fim, todos os espíritas devem lembrar-se da passagem do livro A Gênese de Kardec, onde está escrito: “Numa palavra, o que caracteriza a revelação espírita é o ser divina a sua origem e da iniciativa dos Espíritos, sendo a sua elaboração fruto do trabalho do homem” (15). Ora, no Espiritismo, Deus é a inteligência suprema (16), e o Espiritismo veio ao mundo, em última análise, pelas Suas mãos, já que é divina a sua origem, então, é bem razoável supor, que a Doutrina Espírita não tenha aparecido por acaso no Mundo Ocidental, mas por um propósito maior. Que propósito será este, além da melhoria da humanidade, senão confirmar como, verdadeiras e gerais, as duas tradições culturais do Ocidente, o monoteísmo e a moral de Jesus? Também podemos argumentar que o Espiritismo já estava nos planos de Deus muito antes de Kardec nascer, portanto não é Ocidental nem Oriental, mas divino na sua essência, por isto compactua com a verdade (17) com aquilo que é melhor, mais justo, mais evoluído e mais abrangente. Então é absurda também, a tese onde Jesus é o mais evoluído somente para agradar a sociedade europeia da época. Tese como esta, só pode ter sentido para não espíritas, ou para espíritas que nunca compreenderam verdadeiramente o Espiritismo. Entretanto, entender Jesus como o mais perfeito modelo, como Kardec pensava, está completamente dentro da lógica Doutrinária e não há razão para abandonarmos esta tradicional convicção por outras interpretações.
                    Devemos aprender que o tradicional não será necessariamente ultrapassado por ser tradicional e que o novo não será verdadeiro somente por que é novo. Muitas vezes, opiniões pessoais com pouca ou nenhuma fundamentação real tentam se legitimar atrás de palavras como “nova visão” disto ou daquilo. Raciocínios falsos tentam ganhar ares de verdade vestidos pelo vocabulário erudito. Autores comprometidos mais com seu próprio prestígio pessoal do que pela Doutrina lançam teses duvidosas. Não pretendemos com estas observações execrar o novo, e deixar de lado as contribuições que podem nos trazer os estudiosos e pesquisadores da Doutrina Espírita, porém, devemos dar credibilidade as críticas a qualquer visão tradicional, somente se estiverem com melhores, mais fortes e mais profundos argumentos, com poder de mostrar o erro (18) e revelar novos caminhos a seguir.

(1) No Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo III em Destinação da Terra. Causas das Misérias Terrenas está escrito: “Deve-se considerar que na Terra não está a Humanidade toda, mas apenas uma pequena fração da Humanidade. Com efeito, a espécie humana abrange todos os seres dotados de razão que povoam os inúmeros orbes do Universo”. O que nos leva a crer em encarnações missionárias nestes planetas, análogas a do Cristo, por outros espíritos de grande evolução espiritual.
(2) O Espiritismo nasceu oficialmente no século XIX em 18  de abril de 1857 com a publicação da primeira edição do Livro dos Espíritos.
(3) Livro A Gênese de Kardec, capítulo XV, Os Milagres do Evangelho, item transfiguração.
(4) Livro dos Médiuns de Kardec, capítulo XXIII, Da Obsessão, item 251.
(5) Livro A Gênese de Kardec, capítulo XV, Os Milagres do Evangelho em Superioridade da Natureza de Jesus.
(6) e (7) Espírito Fénelon, e Um Espírito israelita, respectivamente no Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo primeiro, Não Vim Destruir a Lei em Instruções dos Espíritos.
(8) Espírito de Verdade, Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI, O Cristo Consolador.
(9) Espírito Paulo o apóstolo, Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XV, Instruções dos Espíritos.
(10) Resposta dos Espíritos à questão 627 do Livro dos Espíritos.
(11) A Lei do Progresso analisada na Parte Terceira, capítulo VIII do Livro dos Espíritos, é um exemplo.
(12) Livro dos Espíritos, Terceira Parte, Capítulo I, Da Lei Divina ou Natural.
(13) Quanto mais evoluído é o espírito mais autoridade tem ele sobre os outros. Em consequência mais verdadeira e abrangente é sua mensagem. No Livro dos Espíritos está escrito: “Os Espíritos têm uns sobre os outros a autoridade correspondente ao grau de superioridade que hajam alcançado, autoridade que eles exercem por um ascendente moral irresistível”.
(14) Livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XXIV, Não ponhais a candeia debaixo do alqueire, item nove.
(15) Livro A Gênese, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, item 13.
(16) Na primeira pergunta do Livro dos Espíritos a resposta dos Espíritos: “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas”.
(17) No prefácio do Evangelho Segundo o Espiritismo as palavras do Espírito de Verdade: “Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas hão de ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos”.
(18) Livro A Gênese de Kardec no capítulo Caráter da Revelação Espírita, item 55, Kardec escreve: “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”.

FAUSTO FABIANO DA SILVA

BIBLIOGRAFIA

KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 67. ed. São Paulo: Ed.  Lake, 2007.
KARDEC, Allan. A Gênese. 1ed. Rio de Janeiro: Ed. León Denis, 2008.
KARDEC, Allan. Evangelho Segundo o Espiritismo. 85. ed. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1982.




sexta-feira, 6 de junho de 2014

Os Espíritos se alimentam?

OS ESPÍRITOS SE ALIMENTAM?
RIE JUNHO 2014
               
                Existem várias citações em obras mediúnicas, de espíritos desencarnados consumindo frutas, sopas ou água no mundo espiritual. A pergunta que podemos fazer é: estes casos encontram apoio nas obras de Kardec?
                  Primeiramente, lembremos uma passagem significativa do livro A Gênese de Kardec, capítulo Os Fluidos, item 20, que comprova que o Codificador se referiu à alimentação espiritual mesmo que implicitamente: “O pensamento, portanto, produz uma espécie de efeito físico que reage sobre o moral, fato este que só o Espiritismo podia tornar compreensível. O homem o sente instintivamente, visto que procura as reuniões homogêneas e simpáticas, onde sabe que pode haurir novas forças morais, podendo-se dizer que, em tais reuniões, ele recupera as perdas fluídicas que sofre todos os dias pela irradiação do pensamento, como recupera, por meio dos alimentos, as perdas do corpo material. É que, com efeito, o pensamento é uma emissão que ocasiona perda real de fluidos espirituais e, conseguintemente, de fluidos materiais, de maneira tal que o homem precisa retemperar-se com os eflúvios que recebe do exterior” (grifos meus). Notemos que esta passagem faz referência ao homem encarnado, porém, é do espírito que Kardec está falando em primeiro lugar. A perda de fluidos (energias) é do espírito/perispírito, ocasionando reflexo no corpo carnal. Kardec escreve que, se o corpo físico recupera as energias através dos alimentos, o espírito readquire suas energias dos eflúvios, vindo do exterior, através dos poros perispiríticos como sugere esta passagem do mesmo capítulo Os Fluidos, item 18, do Livro A Gênese: “Os meios onde superabundam os maus Espíritos são, pois, impregnados de maus fluidos que o encarnado absorve pelos poros perispiríticos, como absorve pelos poros do corpo os miasmas pestilenciais”. Embora este trecho fale sobre os encarnados, Kardec revela uma propriedade do corpo espiritual, que absorveria as energias negativas de um ambiente ruim, isto faz crer que, poderia absorver elementos positivos de uma atmosfera espiritual benéfica e superior para reparar possíveis perdas, ou retemperar-se, usando as palavras de Kardec. Ora, qual palavra nós poderíamos usar para recuperação/absorção de energias vindas do exterior? Alimentação.
               Alguém poderá alegar que esta passagem de Kardec tem que ter outra interpretação, pois do contrário, estaria em contradição com outros trechos das Obras Básicas, onde encontramos que os espíritos não podem saciar sua fome, por exemplo: No livro O Céu e o Inferno em Exprobrações de um Boêmio: “A influência da matéria segue-os além-túmulo, sem que a morte lhes ponha termo aos apetites que a sua vista, tão limitada como quando na Terra, procuram em vão os meios de os saciar”. Vejamos que a contradição é apenas aparente, pois o trecho em questão se refere a espíritos ainda muito apegados as coisas terrenas, desejando viver suas paixões como se encarnados estivessem, mas isto é impossível. Porém a alimentação espiritual é algo mais sutil e não se compara com alimentação terrena, deste modo, o que os espíritos inferiores não conseguem saciar é a grosseria dos seus instintos, reviver as mesmas sensações materiais de quando encarnados, e é isto que em vão tentam reproduzir, como revela este trecho da Revista Espírita de novembro de 1860 em Conversas Familiares de Além Túmulo: “Não podendo comer, um Espírito material e sensual se repasta da emanação dos alimentos; saboreia-os pelo olfato, como em vida o fazia pelo paladar”. Notamos que alimentação espiritual pelos poros do perispírito, ou por energias condensadas em forma de frutas ou caldos é outro assunto.
                 Há aqueles que ainda poderão afirmar que os espíritos não podem comer, pois não têm órgãos como o corpo físico. Primeiramente devemos dizer que os espíritos também não têm olhos como os encarnados, mas conseguem enxergar, por que sem estômago não poderiam comer? Vejamos que o argumento dos espíritos não terem órgãos não se sustenta, lembremos também que os espíritos não tem cérebro, mas pensam.
                   Outra objeção é baseada na questão 254 do Livro Espíritos, que trata sobre a fadiga nos espíritos desencarnados: “Não podem sentir a fadiga, como a entendeis; conseguintemente, não precisam de descanso corporal, como vós, pois que não possuem órgãos cujas forças devam ser reparadas”. Na Revista Espírita de abril de1859 em Quadro da Vida Espírita, também outro trecho semelhante: “Há sensações que têm sua fonte no próprio estado de nossos órgãos. Ora, as necessidades inerentes ao nosso corpo não podem ocorrer, desde que o corpo não existe mais. O Espírito, portanto, não experimenta fadiga nem necessidade de repouso ou de nutrição, porque não tem nenhuma perda a reparar, como não é acometido por nenhuma de nossas enfermidades” (grifos meus). Outra vez a contradição é apenas aparente.  Notemos que na questão 254 os espíritos utilizam a frase “como a entendeis”, resposta semelhante à questão 200 do Livro dos Espíritos: Os Espíritos tem sexo? R. Não como o entendeis. E é neste sentido que Kardec escreve que os espíritos não se nutrem. Em outras palavras, os espíritos não se nutrem com nós (encarnados) entendemos, não precisam descansar como entendemos e não há nenhuma perda a reparar como nós entendemos, porém, nada obsta se nutrirem espiritualmente, como é sugerido no livro A Gênese já citado.
                  Outra dúvida é se os espíritos podem mesmo condensar as energias em forma de alimentos. Para quem tiver o trabalho de ler com cuidado, o já citado, capítulo, Os Fluidos, agora no item 14, encontrará: “Pelo pensamento, eles imprimem àqueles fluidos tal ou qual direção, os aglomeram, combinam ou dispersam, organizam com eles conjuntos que apresentam uma aparência, uma forma, uma coloração determinadas; mudam-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo certas lei. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual”. Este poder de manipulação pode ser visto também na Revista Espírita de agosto de 1859 em “Um Espírito Serviçal”, onde uma criança encarnada é curada por alimentos espirituais: “Durante oito dias eu mesmo a vi, parecendo sair do seu abatimento, adquirir uma expressão sorridente e feliz, de olhos semicerrados, sem olhar para as pessoas que a cercavam, estender a mão por meio de um gesto gracioso, como para receber alguma coisa, levá-la à boca e comer; depois agradecer com um sorriso encantador. Durante esses oito dias a criança foi sustentada por esse alimento invisível e seu corpo readquiriu a aparência do frescor habitual”. É certo que no caso específico, a alimentação espiritual serviu para curar o corpo físico da menina, entretanto torna-se evidente a possibilidade dos espíritos em fazer tais alimentos.  Ora, Kardec mencionou uma forma dos espíritos absorverem as energias da atmosfera espiritual, que seria através dos poros perispiríticos, porém, é completamente admissível pensar que este não seja o único meio utilizado pelos espíritos. A alimentação espiritual, condensados energéticos em forma de frutas, caldos ou água deixa de ser absurda pra se tornar viável, natural e lógica.
               Outra objeção é porque então estes detalhes não foram mencionados explicitamente pelos Espíritos na época da Codificação. Bem, talvez a resposta seja mais simples do que imaginamos, pois se na época de Kardec “nem tudo foi revelado” como preceitua o capítulo Caráter da Revelação Espírita, no livro A Gênese, e como nos ensina a introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo, os Espíritos “não atacam as grandes questões da Doutrina senão gradualmente, à medida que a inteligência se mostra apta a compreender verdade de ordem mais elevada e quando as circunstâncias se revelam propícias à emissão de uma ideia Nova” é fácil supor então, que certos detalhes da vida espiritual teriam que ser desenvolvidos em época posterior.
               Os espíritos se alimentam? Refazendo a pergunta que dá título ao texto, responderemos: se ficarmos limitados à ideia terrena ou biológica da nutrição a resposta será negativa. Os espíritos não precisam se alimentar no sentido de reporem as energias para continuar vivos já que são imortais. Porém, esta imortalidade não quer dizer autossuficiência. O único ser que podemos afirmar com segurança, ser autossuficiente é Deus. Já os espíritos encarnados ou desencarnados carecem de energias que contribuem para o equilíbrio espiritual. Esta é a mensagem da Doutrina Espírita, o que faz que a presença de alimentos no mundo dos espíritos não seja visto como algo tão exótico como pode parecer inicialmente, fazendo com que os relatos existentes em obras espíritas consagradas sejam na verdade, a confirmação dos princípios doutrinários como: manipulação do Fluido Cósmico Universal pelos espíritos e absorção de energias espirituais.   

FAUSTO FABIANO DA SILVA


BIBLIOGRAFIA

KARDEC, Allan. A Gênese. 1ed. Rio de Janeiro: Ed. León Denis, 2008.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 8 ed. Araras: Ed. IDE, 1995.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Novembro de 1860, Araras: Ed. IDE,1993.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Agosto de 1859, Araras: Ed. IDE, 1993.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 67 ed. São Paulo: Ed. Lake, 2007.
KARDEC, Allan. Evangelho Segundo o Espiritismo. 85. ed. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1982.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Influências Espirituais

INFLUÊNCIAS ESPIRITUAIS

Publicado na Revista RIE de maio de 2014

                    Mesmo para as pessoas que acreditam serem espiritualizadas, as preocupações e as dificuldades do cotidiano, acabam provocando, algumas vezes, uma ilusão. A ilusão que a vida se limitaria apenas a estas preocupações e dificuldades, diminuindo-se, portanto, a importância da dimensão espiritual, ou mesmo esquecendo-a quase por completo. Mas por que este esquecimento ou negligência são perigosos? Por que na dimensão espiritual está uma população invisível que se move em torno de nós, e ela, não é feita apenas de espíritos bons: “Os Espíritos que formam a população invisível da Terra são, de certa maneira, o reflexo do mundo corporal. Encontram-se neles os mesmos vícios e as mesmas virtudes aqui observadas”[1], consequentemente os espíritos maus também exercem sua influência, facilitados, como foi dito, pela ignorância ou pela falta de preocupação pelas questões espirituais que normalmente levam a falta de vigilância sobre nossos atos e pensamentos.
                   Devemos saber que, para se aproximarem de nós, os espíritos maus não esperam o nosso chamado: “Credes que os Espíritos maus, que pululam no meio da Humanidade, esperaram ser chamados para exercerem sua influência perniciosa?” [2], o que vale dizer que, retirando os inimigos espirituais, em casos específicos de vingança, são eles, os espíritos inferiores, verdadeiros oportunistas, figurativamente, como as aves que são atraídas pelo cheiro de animais mortos, sendo este odor nossas imperfeições ou nossas inclinações menos dignas: “tais inclinações são piores que os Espíritos maus, pois são elas que os atraem como a corrupção atrai as aves de rapina”.[3]
                   Para entendermos melhor o que facilita os espíritos serem atraídos uns pelos outros ou entre estes e os encarnados, devemos compreender que os espíritos irradiam ao seu redor uma espécie de energia que revela seu adiantamento intelecto/moral: “A alma não se acha encerrada no corpo, qual pássaro numa gaiola. Irradia e se manifesta exteriormente, como a luz através de um globo de vidro”[4] . É oportuno também o trecho encontrado no livro Céu e o inferno: "Por sua natureza, possui o Espírito uma propriedade luminosa que se desenvolve sob o influxo da atividade e das qualidades da alma”[5], assim, um espírito com baixa qualidade moral não poderá exteriorizar uma luz resplandecente, benéfica, curativa e amorosa, na verdade, não terá  luz  nenhuma, ou dependendo do caso sua  atmosfera espiritual será doentia, chegando a ser comparada com o cheiro da decomposição[6]ou miasmas[7]. Desta maneira, percebemos como deve ser difícil, para não dizer impossível, os espíritos encarnados ou desencarnados esconderem aquilo que são para os outros espíritos, tornando-se facilmente identificáveis, atraindo aqueles que são seus iguais.
                  Tendo em vista os conhecimentos preliminares sobre os espíritos inferiores vistos até aqui, podemos fazer algumas reflexões decorrentes da influência destes espíritos. Primeiro: a criatura ao desencarnar, mesmo sendo má, não fica trancafiada para sempre em algum lugar, se fosse assim, não existiriam as obsessões. A Doutrina Espírita, pelo ensino dos Espíritos e pela prática mediúnica põe por terra a ideia de um céu compartimentado em níveis celestiais estanques e absolutos. Entretanto, é lógico que os espíritos possam ficar reunidos por simpatia ou identidade de interesses, em algum lugar[8], porém, regiões estas sempre regidas pela transitoriedade, já que o espírito tendo que obedecer cedo ou mais tarde a Lei do Progresso[9], terá que lançar voo para novas paisagens, é por isto que Kardec escreve: “A localização absoluta das regiões das penas e das recompensas só na imaginação do homem existe”[10]. Segundo: o contato com as influências negativas do além serve para uma finalidade positiva, sem que os espíritos malfeitores tenham consciência disto. Por que ao odiarem, estes espíritos estão oferecendo as vítimas a oportunidade do perdão, de retribuir o mal com o bem, lembrando a conhecida passagem do Evangelho: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam...”[11] Engana-se, porém, quem pensa que este tipo de “serviço” que os maus produzem, sem perceberem, os eximem da responsabilidade por seus atos, ou torne-os mais nobres, é assim que: “Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha”[12] mais adiante outro trecho: “É necessário que o escândalo venha, porque, estando em expiação na Terra, os homens se punem a si mesmos pelo contacto de seus vícios, cujas primeiras vítimas são eles próprios e cujos inconvenientes acabam por compreender”[13].  É de se admirar da sabedoria divina que de um mau tira um bem, pois oferecendo a criatura terrena a ocasião de entrar em contato com o mal, lhe dá oportunidade de resistir, fortalecendo o caráter, tornando-se um espírito melhor. É como um lutador que precisa de alguém para lutar, vindo a ser mais forte e mais poderoso que seu adversário, é desta maneira que, aquele que “se libertou da obsessão em vida, é forte, e os Espíritos maus o encaram com temor e respeito”[14]. Terceiro: A possibilidade de podermos fazer o mal ou o bem revela o livre arbítrio dado por Deus as suas criaturas e como esta liberdade é importante na evolução do espírito, porque, se Deus através de seus mensageiros fosse impedir toda vez este ou aquele ato infeliz, não ganharíamos experiência com nossos próprios erros e o mérito pessoal em resistir ao mal ficaria comprometido. Porém, se engana quem pensa que estamos sozinhos na luta contra as influências negativas. Segundo a Doutrina Espírita, todos nós contamos com um espírito protetor, que nos induz bons pensamentos, que age em nosso favor para que venhamos a permanecer no caminho reto, sem nos tolher a liberdade ou o livre arbítrio. O espírito protetor até pode expulsar ocasionalmente[15] os espíritos inferiores que desejam nos envolver, entretanto, a responsabilidade maior em fazer isto é, e sempre será, de nós mesmos pela prática do bem, pela vivência do amor e principalmente pela perseverança no objetivo de tornar-se uma pessoa melhor. Todavia fiquemos atentos, os espíritos maus não vão embora quando a bondade e as boas intenções são apenas superficiais e passageiras. Lembremo-nos da questão 468 do Livro dos Espíritos: “... Entretanto, ficam à espreita de um momento propício, como o gato que tocaia o rato”.[16] Este momento propício certamente varia de pessoa para pessoa, mas normalmente se apresenta quando os problemas aparecem ou quando vivemos situações em que nossos impulsos inferiores podem ser satisfeitos[17].
                     O assédio do mundo espiritual inferior revela uma verdadeira batalha espiritual que se dá na vida diária sem que muitos tenham consciência disto. Os que se deixam levar pelas drogas, pelos desvarios do sexo, pela violência, pelo crime, pelo desânimo excessivo, pelo pessimismo, pela arrogância e pela vaidade, pelo apego as coisas materiais em detrimento das espirituais são os que estão perdendo e os espíritos inferiores se alegram, pois nestes casos nós nos assemelhamos a eles. Mas os que, vigilantes, não desistem e mesmo caindo em erro voltam a se erguer e mesmo tendo a consciência da triste verdade que certas fraquezas têm raízes profundas na alma, e mesmo assim não desanimam na busca de horizontes mais altos, bem, estes são os que estão vencendo, homens e mulheres de bem[18], espalhados pelo mundo na mais alta até a mais humilde posição social, pertencendo aos mais variados credos e culturas. São eles que já fazem esta revolução silenciosa, qual rio subterrâneo que eclode de maneira subversiva nas tradições perversas e viciosas do mundo para transformá-las. O Espiritismo, não ficando de fora deste movimento renovador, é também uma voz que vem clamar, a adentrarem na batalha, todos aqueles que almejam um mundo melhor, batalha esta, sem dragões, espadas ou castelos como na visão romanesca medieval ou tanques e foguetes do mundo contemporâneo, mas com a armadura indestrutível do amor e do esclarecimento.

FAUSTO FABIANO DA SILVA
Pesquisador Espírita em Londrina.


BIBLIOGRÁFIA

KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Araras: Ed. Instituto de Difusão Espírita.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 67. ed. São Paulo: Ed.  Lake, 2007.
KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno.  Disponível em <http://www.febnet.org.br/wp-content/uploads/2012/07/138.pdf  > Acesso em 10 de fevereiro de 2014.                           
KARDEC, Allan. Evangelho Segundo o Espiritismo. 85. ed. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1982.
KARDEC, Allan. Revista Espírita, junho de 1860.
KARDEC, Allan. Revista Espírita, dezembro de 1862.




[1] Pequena Conferência Espírita, capítulo um, livro O que é o Espiritismo de Allan Kardec.
[2] Revista Espírita de dezembro de1862, Estudos sobre os Possessos de Morzine.
[3] Idem ao item 2
[4] Livro dos Espíritos de Allan Kardec, questão 141.
[5] Livro O Céu e o Inferno de Allan Kardec, segunda parte, capítulo IV- Espíritos Sofredores, Claire.
[6] Estudos Sobre os Possessos de Morzine na Revista Espírita de dezembro de 1862
[7] Miasma é o conjunto de odores fétidos provenientes de matéria orgânica em putrefação. No século XVII acreditava-se que estes odores eram a causa de doenças, mais tarde esta crença foi abandonada pela teoria microbiana.
[8] Questão 278 do Livro dos Espíritos: Os da mesma categoria se reúnem por uma espécie de afinidade e formam grupos ou famílias, unidos pelos laços da simpatia e pelos fins a que visam: os bons, pelo desejo de fazerem o bem; os maus, pelo de fazerem o mal, pela vergonha de suas faltas e pela necessidade de se acharem entre os que se lhes assemelham.
[9] Livro dos Espíritos de Allan Kardec, capítulo VIII.
[10] Livro dos Espíritos de Allan Kardec questão 1012, edição eletrônica FEB.
[11] Livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XII, Amai aos Vossos Inimigos, Mateus, 5:43 a 47.
[12]Livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VIII, Escândalos. Se a vossa mão é motivo de escândalo, cortai-a. Mateus 18:7
[13] Livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VIII, item 14.
[14] Revista Espírita de junho de 1860. Conversas Familiares de Além Túmulo.
[15] Leia-se o texto do item 6 onde encontramos: “Todavia – indagarão – por que os Espíritos protetores não lhes ordenam que se retirem? Certamente o podem e o fazem algumas vezes; mas, permitindo a luta, também deixam o mérito da vitória”.
[16] Questão 468 do Livro dos Espíritos.
[17]Questão 466 do Livro dos Espíritos: “... porquanto os Espíritos inferiores correm a te auxiliar no mal, logo que desejes praticá-lo”.
[18] Leia-se o texto O Homem de Bem, capítulo XVII do Evangelho Segundo o Espiritismo.