terça-feira, 19 de setembro de 2017

O rito de passagem

(publicado na RIE de setembro de 2017)


                  Existem muitos rituais de passagem. Alguns deles expressam um compromisso que a pessoa assume com o grupo, com um ideal, ou mesmo com a divindade. Um exemplo deste último caso é o “aceitar Jesus como suficiente salvador” das igrejas evangélicas. Ora, a pessoa que aceita verdadeiramente (1) Jesus, deixa, segundo a Teologia, de ser apenas criatura e se torna filho de Deus. A partir daquele dia seu nome estará escrito no Livro da Vida. É de fato um rito de passagem por excelência.  Porém, esta nova condição lhe acarreta certa exigência: a transformação moral.  
                   Contudo, este aceitar Jesus, geralmente em cultos altamente emocionais, com hinos e pregações envolventes, não geram a transformação moral esperada de maneira repentina e algumas vezes nem mesmo a longo prazo. É por isto que existe a ideia bastante difundida que é preciso se alimentar da Palavra, não deixando de frequentar a igreja, para que o “fogo” não se apague. Entretanto, a frequência assídua aos cultos não é garantia total de transformação, pois existem pessoas que aceitaram a Cristo, se batizaram e se desviaram ou mesmo abandonaram a igreja, não conseguindo largar suas velhas práticas do mundo.  Revela-se então os limites do testemunho público, do ritual de passagem ou de qualquer cerimônia onde a pessoa prometa direta ou indiretamente viver com mais santificação ou purificação.
                   Outra limitação dos rituais de passagem é expressada pela incapacidade de resolverem certos problemas ou aflição pelo qual passamos. Algumas pessoas simplesmente não compreendem porque, após realizarem todas as obrigações de culto ainda passam por angústias. Por exemplo: aceitam Jesus, se batizam, pagam o dízimo com fidelidade, vão a todos os cultos, fazem campanhas de oração por isto ou aquilo, jejuam, pregam, trabalham na igreja como obreiros e mesmo assim não se livram de situações delicadas ou problemáticas (2).
                     Nós espíritas, sabemos que muitas dificuldades são oriundas de outras reencarnações, sem compreendermos isto, fica difícil aceitarmos a justiça divina, por exemplo:  por que será que aquela pessoa sendo crente há muitos anos, ainda não conseguiu ver sua vitória chegar? E por que será que o fulano que aceitou Jesus a semana passada tudo lhe parece sorrir?
                   A limitação do rito de passagem é visualizada também, quando ele é utilizado como moeda de troca para uma vida de prosperidade, principalmente material.  Uma vez por exemplo, me disseram para abandonar a Doutrina Espírita e aceitar outra fé. Deus então abriria as portas do céu, emperradas por eu ser espírita, e inclusive a minha vida financeira iria mudar. Questionei então o porquê de centenas de pessoas que moram em favelas e comungarem a tal fé, continuarem pobres, doentes e cheias de problemas. Será que Deus se esqueceu delas?
                    É bem difícil aceitar, para o religioso em geral, que Deus se manifeste fora do círculo de sua crença pessoal, por isto, os rituais de passagem são exigidos para que Deus possa agir com mais liberdade na vida do fiel, ficando de fora os outros, considerados muitas vezes como ímpios ou até infiéis. No entanto, para a Doutrina Espírita, os espíritos bons, vão estar sempre perto de qualquer pessoa que deseje o bem ou que trabalhe para o progresso da humanidade: ateu, judeu, muçulmano, católico, evangélico, espírita, homossexual, negro, asiático, mulher, homem, pobre, rico ou qualquer outro.
                    As limitações do ritual de passagem visto até aqui, porém, não o transforma necessariamente em uma coisa errada, hipócrita ou mesmo sem valor. Existem pessoas que precisam mesmo da existência de tais rituais ou cerimônias. É por isto que a Doutrina Espírita não condena nenhum ritual que seja inofensivo e expresse o bem principalmente se a pessoa sente necessidade psicológica ou emocional de fazê-lo. O Espiritismo apenas esclarece que para Deus, o mais importante é o que está no coração.
                   Podemos afirmar inclusive que para algumas pessoas, a falta de rituais na Doutrina Espírita ou no movimento espírita, principalmente os de passagem, seja um dos motivos para certos indivíduos não se adaptarem à Doutrina Espírita, pois no movimento espírita, não há nenhum juramento ou culto especial para se tornarmos espíritas, não há roupas especiais, nem anéis que nos identifique como espíritas. 
                    Esta falta de rituais tem um ponto positivo:  é o começo de uma preparação para a libertação futura de qualquer necessidade de coisas exteriores, sendo cerimônias, rituais, liturgias ou qualquer coisa material ou simbólica para adorar a Deus ou para expressarmos nossa espiritualidade.
                    Entretanto, alguns espíritas podem não estar preparados para esta liberdade. Digo liberdade, porque se não há um cerimonial público de compromisso do espírita, se não há nenhum anel ou aliança nos dedos nos lembrando do Espiritismo, às vezes, a tão conhecida reforma íntima, que equivale moralmente ao aceitar Jesus dos evangélicos, pode ser postergada indefinidamente na presente reencarnação, sem que aparentemente ninguém saiba disto. 
                    Devemos nos perguntar porque a reforma íntima dos espíritas, tão comentada, não aconteça sempre. É simples. Por ela ser íntima, tão íntima que acaba sendo esquecida pela própria pessoa que deveria fazê-la. Notamos que no Espiritismo é grande a sensação de liberdade, porque não há espíritos se materializando na nossa frente nos cobrando isto ou aquilo, uma vez que nosso livre arbítrio é muito respeitado. Não há nenhum rito para iniciarmos nossa reforma moral, por outro lado também, há pouca expectativa pública em relação a nossa retidão moral.  Quando se tornamos espíritas, as pessoas no geral, apenas saberão que vamos acreditar em espíritos e na reencarnação.
                   Mas é compreensível perceber que a relação entre ser espírita e retidão moral nem sempre seja óbvia, afinal, a Doutrina Espírita é entendida, por parte da população, como coisa do diabo, relacionada a “médiuns videntes”, feitiçarias e práticas ocultistas.  No entanto, causa profunda tristeza que a relação entre ser espírita e retidão moral não seja evidente nem urgente, algumas vezes, nem pelos próprios espíritas.
                  Muitos espíritas não sabem exatamente a real dimensão da sua missão (3) na Terra. Nem se deram conta do compromisso ou a aliança que deveriam ter com Jesus.  Sabem que a Doutrina Espírita tem Jesus, seu nome por exemplo, é citado várias vezes em toda as chamadas Obras Básicas. No entanto, não basta Jesus estar na Doutrina é necessário que ele esteja em nós.  As freiras costumam usar uma aliança nos dedos para lembrá-las do voto que fizeram, os crentes usam a confissão pública para renascerem de novo, selando o compromisso para serem um novo indivíduo. E o espírita? Qual nosso posicionamento diante de Cristo? Qual nosso posicionamento diante da nossa missão? Temos que nos perguntar: qual aliança que temos com Jesus? Muitos poderão dizer que não temos aliança alguma com o mestre, porque nosso compromisso é moral, mas que moral é esta? Todos os espíritas sabem que devem amar o próximo mais que amor ao próximo é este? Por acaso os espiritas seguem alguma moral genérica? Ora, os Espíritos da Codificação, não ficaram em cima do muro, eles deram os nomes aos bois para que o espiritismo não se perdesse no mar do relativismo moral dos homens.  O amor ao próximo dos espíritas é o amor defendido por Jesus com toda a sua dimensão e implicações. O vínculo com jesus é claro e nosso compromisso com ele também teria que ser.
                    Sabemos que Jesus é o guia da humanidade e que gerencia (4) o processo de regeneração do planeta Terra. No entanto, esta humanidade está sempre fora de nós, é nosso vizinho, são as ruas, os outros países. O chamado de Jesus, porém, também é para quem escreve este texto e para você que está lendo.
                   O fato de nós não termos rituais de passagem, não quer dizer que nosso compromisso com a Doutrina Espírita não exista, o fato de não usarmos uma aliança indicando nossa intenção de melhorarmos moralmente não quer dizer que esta transformação não será cobrada um dia. Desta maneira, devemos perceber que nosso compromisso com Cristo, como obreiros do Senhor e trabalhadores da última hora é real, embora isto não esteja materializado em coisa alguma.
                  
(1)   Pensando nas coisas do céu e não com segundas e terceiras intenções comumente financeiras.
(2)   A homossexualidade persistente em jovens que nasceram e cresceram dentro das igrejas evangélicas é um exemplo onde nenhum ritual de passagem, oração ou jejum tiveram a capacidade de reverter.
(3)   Ler capítulo XX, “Os trabalhadores da última hora”, do Evangelho Segundo o Espiritismo.
(4)   No Evangelho Segundo Espiritismo capítulo primeiro em O Espiritismo, encontramos a frase que diz respeito a Doutrina Espírita e ao mesmo tempo revela que Jesus preside a regeneração da Terra: “Ele é pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o Reino de Deus na Terra”.


Fausto Fabiano da Silva

Bibliografia

KARDEC, Allan. Evangelho Segundo o Espiritismo. 85. ed. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1982.




sábado, 3 de junho de 2017

O mundo de Regeneração

O mundo de regeneração
Fausto Fabiano da Silva
faustofabianodasilva@yahoo.com.br

                                                                             (publicado na RIE de junho de 2017)

                    O mundo de regeneração é o período histórico que virá, pela Lei do Progresso[1], suceder o chamado mundo de provas e expiações, tempo que ainda vivemos. Nascendo nos escombros do mundo atual, se desvencilhará aos poucos de uma velha ordem e brilhará, lentamente e irremediavelmente, como a luz do sol nos primeiros clarões da aurora. Sem transformações miraculosas, a transição se dará até onde sabemos de forma gradual[2] como a idade madura sucede aos anos da adolescência: “Essa fase, que neste momento se elabora, é o complemento indispensável do estado precedente, como a idade viril o é da juventude.”[3]
                     Muitos serão os espíritos que, não sendo mais merecedores de viver aqui, serão retirados da Terra mesmo contra a vontade[4], para recomeçar novos ciclos reencarnatórios em outros mundos[5]: “Irão para mundos novos, menos adiantados, desempenhar missões penosas, trabalhando pelo seu próprio adiantamento, ao mesmo tempo em que trabalharão pelo de seus irmãos ainda mais atrasados.”[6]
                    Os espíritos banidos da Terra serão de dois tipos: os “que praticam o mal pelo mal”[7] e os que “tentem deter a marcha das coisas”[6]. A primeira informação sobre a natureza moral dos excluídos é útil para não criarmos falsas expectativas de um mundo maravilhoso logo no começo do período de regeneração. Pois que se retirarmos todos os que se comprazem no mal, as almas realmente cruéis, revoltadas e ainda avessas a qualquer transformação, restarão muitas pessoas que se não são perversas, boas também não são. Serão aqueles que “passaram raspando” ou quase foram embora do convívio terreno. Entretanto, com o coração não tão duro e inflexível como dos espíritos maus, serão contaminados aos poucos pelo exemplo dos bons espíritos e acabarão por modificar-se após novas reencarnações na Terra. Só então, passados necessariamente os primeiros séculos, cumprir-se-á uma frase sobre o mundo de regeneração encontrada em O Evangelho Segundo o Espiritismo: “Em todas as frontes, vê-se escrita a palavra amor; perfeita equidade preside às relações sociais, todos reconhecem Deus e tentam caminhar para Ele, cumprindo-lhe as leis.”[8] 
                     É um erro, portanto, pensar que logo no começo do Mundo de Regeneração a Terra tenha que ser uma espécie de paraíso. Somente após os primeiros séculos desta nova era que se notarão diferenças significativas em relação ao passado. É bom lembrar também que, mesmo com o mundo de regeneração inteiramente constituído, o mal ainda existirá. Em O Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos: “Mas, ah! nesses mundos, ainda falível é o homem e o espírito do mal não há perdido completamente o seu império.”[8] Ou seja, um mundo onde reine somente a bondade virá apenas numa época posterior ao mundo de regeneração.
                  A segunda informação sobre a natureza dos espíritos excluídos, que vão “tentar deter a marcha das coisas”, revela algo também significativo, pois remete ao tema mentalidade. O espírito não precisa ser apenas mau para deixar a Terra, mas se a sua mentalidade for profundamente retrógrada, contrária a princípios gerais consagrados como os contidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, e mais, apelando para a violência, como por exemplo, nos casos de assassinatos de homossexuais por motivos religiosos, então também será um candidato a deixar o nosso meio, amargando novas existências em mundos compatíveis com a sua mentalidade e intolerância.
                   Alguém poderá questionar que este mundo de regeneração é uma utopia, pois a brutal realidade dos fatos – as duas Grandes Guerras do século XX, o terrorismo persistindo na época atual, a fome, o tráfico de drogas, a violência das ruas, a degradação da natureza, entre outras coisas – negariam a melhoria da humanidade. Entretanto, este raciocínio não é verdadeiro. Ao lermos a questão 784 de O Livro dos Espíritos nos deparamos com a seguinte indagação: “Bastante grande é a perversidade do homem. Não parece que, pelo menos do ponto de vista moral, ele, em vez de avançar, caminha aos recuos?”. Resposta: “Enganas-te. Observa bem o conjunto e verás que o homem se adianta, pois que melhor compreende o que é mal, e vai dia a dia reprimindo os abusos. Faz-se mister que o mal chegue ao excesso, para tornar compreensível a necessidade do bem e das reformas.” . Desta resposta tiramos desdobramentos importantes ao nosso estudo. O primeiro deles é que ao nos pedir que observássemos bem o conjunto, os espíritos nos cobram uma visão histórica e espiritual do mundo e não uma noção imediatista, na qual muitas vezes somente o mal é valorizado. Por isto, os espíritos disseram: observa bem o conjunto e verás que o homem se adianta. 
                   Citemos como exemplo a generalização dos direitos da mulher. Não é preciso recuar muito no tempo para concluir que a mulher avançou na conquista de muitos direitos, entre eles de participar da política, de estudar e ter uma profissão, de poder escolher com quem vai casar e de ter a fé que mais lhe convenha. Ora, se ainda hoje, em alguns países, alguns destes direitos lhe são recusados, o que se dirá milênios atrás! É inegável, portanto, que houve um avanço.
                    Devemos saber também que a humanidade encarnada não representa toda a humanidade, que está em boa parte no mundo dos espíritos, o que nos leva a acreditar que a dinâmica evolutiva para o mundo de regeneração seja mais complexa do que imaginamos.
                   Outro desdobramento da questão 784 de O Livro dos Espíritos é que os próprios espíritos nos alertaram que o mal chegaria ao excesso. Nunca os espíritos prometeram um mundo cor-de-rosa neste período de transição. Vejamos outras frases dos espíritos que apontam nesta mesma direção: “No vosso [mundo], precisais do mal para sentirdes o bem; da noite, para admirardes a luz; da doença, para apreciardes a saúde.”[5] “O mundo está abalado em seus fundamentos; reboará o trovão. Sede firmes!”[9]. O trovão significa uma grande tempestade, ventos fortes, céu nublado e não calmaria. Isto quer dizer que nada de diferente está ocorrendo que já não estivesse sido previsto. Deus está no controle.
                    Se os problemas do mundo não têm a capacidade de negar o mundo de regeneração, uma vez que eles não representam nenhuma novidade, e mesmo eram esperados pelos espíritos, ainda resta a alegação que a tão sonhada época da regeneração da humanidade ainda vai demorar muito para começar, porém este raciocínio também não está correto.
                     Existem várias frases retiradas das Obras Básicas da Doutrina Espírita que apontam o mundo de regeneração para perto e não para longe, vejamos três delas: “Predita foi a transformação da Humanidade e vos avizinhais do momento em que se dará...”[6]; “Havendo chegado o tempo, grande emigração se verifica dos que a habitam...”[10]; “Bons espíritas, meus bem-amados, sois todos obreiros da última Hora”[11].
                  Se nós conseguirmos compreender o mundo de regeneração como um processo histórico-espiritual gradual e não como um fenômeno repentino; se estivermos cientes das características morais dos que vão embora; se compreendermos que o escândalo e o mal chegando ao excesso já eram esperados, então, nada impede que o começo do mundo de regeneração esteja realmente mais próximo do que imaginamos. Não é necessário transferir, portanto, a Nova Era para daqui a mil anos, como que para salvar a credibilidade da Doutrina Espírita.
                   Entender o que é o mundo de regeneração, através do estudo atento da Doutrina Espírita, é muito importante para nosso próprio esclarecimento, mas principalmente, para trazer o tema à luz da razão e do bom senso, fazendo a regeneração da humanidade uma realidade possível e real.


1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Capítulo VIII. 67.ed. São Paulo: Ed. Lake, 2007.
2. No entanto, pela lógica da questão 783 de O Livro dos Espíritos, não há garantia total para não acontecer algo mais radical em algum momento.
3. KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo XVIII – “Sinais dos Tempos”. 1.ed. Rio de Janeiro: Ed. León Denis, 2008.
4. A superioridade moral gera uma autoridade irresistível. Por isto, a expulsão dos espíritos maus é inevitável e está conforme a vontade Divina que ninguém pode se opor. Ler a questão 274 de O Livro dos Espíritos.
5. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo III – “Há muitas moradas na casa do meu Pai”. 85.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1982.
6. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Questão 1.019. 67.ed. São Paulo: Ed. Lake, 2007.
7. KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo XVIII – “A Geração Nova”. 1.ed. Rio de Janeiro: Ed. León Denis, 2008.
8. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo III – “Mundos Regeneradores”. 85.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1982.
9. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo I – “Instruções dos Espíritos”. 85.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1982.
10. KARDEC, Allan. A Gênese. Capítulo XVIII – “A Geração Nova”, item 27. 1.ed. Rio de Janeiro: Ed. León Denis, 2008.
11. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XX – “Os trabalhadores da última hora”. 85.ed. Rio de Janeiro: FEB, 1982.



quinta-feira, 3 de março de 2016

O ESPIRITISMO E A VIDA EM MARTE

O ESPIRITISMO E A VIDA EM
 EM MARTE
 (Um texto resumido deste foi publicado na RIE de março de 2016)

                   Após recebermos as imagens de Marte (1) e verificarmos a aparente ausência de vida inteligente, provavelmente virão à mente dos espíritas ou de seus opositores as descrições mediúnicas feitas de populações pouco evoluídas (2) neste planeta ou mais avançadas (3). Esta contradição, entre deserto e civilização, pode levar alguém a pensar em um duplo fracasso da Doutrina Espírita: nem inferior nem superior. Mas será que isto é verdade?
                 Para elucidarmos o assunto, devemos saber que o Espiritismo (Obras Básicas) revela que há diferentes níveis de materialidade, onde a natureza e uma civilização encarnada possam existir invisíveis aos nossos olhos, sem estarmos falando neste momento das dimensões espirituais do após morte. Para darmos sustentação à tese apresentada verificamos que o próprio corpo físico se torna menos material conforme o mundo seja intelectual e principalmente moralmente mais avançado. Vejamos o que encontramos no Livro dos Espíritos na questão 181: “Os seres que habitam os diferentes mundos têm corpos semelhantes aos nossos? Sem dúvida que têm corpos, porque é necessário que o Espírito se revista de matéria para agir sobre ela; mas esse envoltório é mais ou menos material (4) segundo o grau de pureza a que chegaram os Espíritos...”.  Na questão 985: “... à medida que os Espíritos se purificam vão-se encarnando (5) em mundos mais e mais perfeitos, até que se tenham despojado de toda a matéria...” e no livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo Há Muitas Moradas na Casa do Meu Pai, comentando sobre os mundos de regeneração: “Neles, todavia, não está ainda a felicidade perfeita, mas a aurora da felicidade. O homem aí é ainda carne e, por isso mesmo, sujeito às vicissitudes de que não estão isentos senão os seres completamente desmaterializados...”. Notamos o significativo “ainda”, sugerindo claramente que a vida corpórea, em planetas mais evoluídos não seria de carne, tendo assim, outra materialidade sutil e etérea. Verificamos que há uma escala progressiva do material para o menos material até chegarmos a um ponto onde até o corpo físico não seja necessário, apenas o perispírito e mesmo este se tornaria tão etéreo que é como se não existisse, é o que lemos na questão 186 do Livro dos Espíritos: “Há mundos onde o Espírito, deixando de viver num corpo material, só tem por envoltório o perispírito? Sim, e esse envoltório torna-se de tal maneira etéreo, que para vós é como se não existisse. Eis então o estado dos Espíritos puros”. Percebemos um amplo apoio doutrinário a ideia de populações encarnadas mais sutis do que a nossa e por isto longe está este apoio, de ser um argumento para tentar “salvar do descrédito” as descrições mediúnicas de civilizações etéreas em Marte.
                    Contribuindo também para a ideia de mundos com habitantes encarnados em corpos mais sutis, temos a literatura mediúnica de Chico Xavier, onde através dos livros Cartas de uma Morta e Novas Mensagens ficamos sabendo que os habitantes de Marte podem voar (6) se comunicar pelo pensamento (7) e se alimentar pelas forças atmosféricas (8). Ora, é fácil entendermos que somente um corpo sutil e etéreo e possivelmente invisível para nós, poderia produzir estes fenômenos. E para quem acha estas descrições fantasiosas (9), lembramos o que está escrito na questão 223 do Livro dos Espíritos, tratando de mundos superiores: “A matéria corpórea sendo menos grosseira, o espírito encarnado goza de quase todas as faculdades do Espírito”, nada de estranho, portanto, volitar e entender-se pelo pensamento. Quanto a alimentação pelas forças atmosféricas é bom lembrarmos também a compatibilidade com o pensamento de Kardec nos comentários da questão 182 do Livro dos Espíritos, sobre mundos mais adiantados:  “...suas necessidades físicas são menos grosseiras, os seres vivos não têm mais necessidade de se destruírem para se alimentar”.   Além disso, os livros Cartas de uma Morta (10) e Novas Mensagens (11) revelam o nível moral dos habitantes de Marte sendo superior a de um planeta de regeneração, logo, outra vez, a indicação que seus corpos não seriam mais de carne e sim de uma materialidade mais sutil do que a nossa.  Desta maneira, cai por terra também a acusação que os espíritos Maria João de Deus e Humberto de Campos, não tenham dito que os marcianos seriam invisíveis, e que isto causou um excesso de expectativa dos marcianos aparecerem com a sonda Curiosity. Porém, o espírita estudioso que leu as obras de Chico Xavier com atenção, concluirá facilmente tratar-se de populações em corpos sutis, etéreos e possivelmente invisíveis. 
                Se admitirmos possível a existência de seres encarnados em corpos mais desmaterializados, por conseguinte, suporíamos que a realidade ou parte dela, que estivesse envolvendo esta civilização, também teria um nível de materialidade correspondente, seguindo a lógica da Natureza e do Livro dos Espíritos: “As condições de existência dos seres nos diferentes mundos devem ser apropriadas ao meio em que têm de viver” (12) em outras palavras, sabendo como é a natureza de um corpo isto nos ajudaria a pensar como seria o meio onde habita e vice e versa (13). Assim, um corpo mais desmaterializado reclamaria uma realidade circundante de igual natureza, entretanto, isto não revela a necessidade do Planeta Marte ou outro, seja inteiro de matéria etérea e invisível, da mesma forma que os peixes não precisam que o Planeta Terra seja completamente água para existirem (14). É desta maneira, por exemplo, que no livro Cartas de uma Morta temos a descrição de um mar fluídico em Saturno sem que o planeta todo seja desta natureza: “Locomovemo-nos em determinada direção e qual não foi o meu espanto ao deparar com grande massa de substância fluídica, um pouco semelhante à água levemente rosada, elucidando o meu prezado mentor tratar-se dos mares (15) saturninos”.  Este pequeno trecho ensina também duas coisas importantes ao leitor. Primeiro: O mar é fluídico, portanto invisível e etéreo, desta forma, as sondas terráqueas que porventura lá se aproximarem muito provavelmente não o registrarão.  Segundo: Se existe um mar fluídico é porque podem existir outros elementos também etéreos, como vegetação, animais, nuvens e atmosfera já que na natureza nada permanece estacionário: “Marcham assim, paralelamente, o progresso do homem, o dos animais, seus auxiliares, o dos vegetais e o da habitação, porquanto nada em a Natureza permanece estacionário” (16).
                    Fica claro, até aqui, a constatação, através da Doutrina Espírita, de outros níveis de materialidade (17) além daqueles que conhecemos, porém, é importantíssimo saber que os próprios Espíritos da Codificação na questão 182 do Livro dos Espíritos, não desejaram entrar em detalhes de como seria a constituição física e moral destes mundos: “Nós, Espíritos, só podemos responder de acordo com o grau de adiantamento em que vos achais. Quer dizer que não devemos revelar estas coisas a todos, porque nem todos estão em estado de compreendê-las e semelhante revelação os perturbaria”. Desta maneira, começamos a compreender o motivo pelo qual Kardec usou o verbo (seria ou estaria conforme a tradução), nos comentários a questão 188 do Livro dos Espíritos (18), ou seja, no futuro do pretérito, indicando um fato hipotético, quando fala dos habitantes de Marte sendo inferiores aos da Terra. Começa ficar claro também o porquê de Kardec classificar como probabilidades ou hipótese e não como Verdade todo o conteúdo das comunicações que tratavam na sua época (19) da descrição da vida em outros mundos: “Para nós, que temos testemunhado essas comunicações centenas de vezes, que as temos apreciado em seus mínimos detalhes, que lhes investigamos os pontos fracos e fortes, que observamos as similitudes e as contradições, nelas encontramos todos os caracteres da probabilidade; contudo, não as damos senão como inventário e a título de ensinamentos, de que cada um será livre para dar a importância que julgar conveniente” (20). Ora, se os Espíritos da Codificação não entraram em detalhes sobre a vida em outros mundos, Kardec sabiamente não julgou nem como falsas, nem como verdadeiras as informações (21) sobre a vida em Júpiter, Marte ou Vênus encontradas na Revista Espírita (22) lhes dando apenas o caráter de prováveis ou hipotéticas, sem terem a posição de Verdade.  Desta forma, não podemos afirmar que o Espiritismo falhou quando a sonda Curiosity pousou em Marte e não encontrou populações inferiores à Terra. O que provavelmente está errada é a veracidade de determinadas comunicações mediúnicas, não a Doutrina Espírita, que atestam a inferioridade marciana como a do espírito Geores na Revista Espírita de outubro de 1860, mas isto não é motivo de espanto já que o próprio Kardec encontrou contradições entre centenas de comunicações (23) a respeito, nada mais natural que algumas delas não fossem completamente verdadeiras. Já sobre as obras de Chico Xavier, nós já vimos que através de uma leitura atenta, que tudo caminha do sentido de serem os marcianos mais evoluídos em todos os aspectos consequentemente, sendo menos materiais, não é estranho não podermos identificá-los nas imagens das nossas lentes. Deste modo não podemos dizer que as obras de Chico falharam muito menos a Doutrina Espírita através delas.     
                    Podemos afirmar sem medo de errar que o pano de fundo da maioria das críticas ao Espiritismo não é a busca pela verdade e sim a defesa feroz de uma visão de mundo onde as idéias espíritas não são bem vindas. Por isto, os que combatem o Espiritismo, por exemplo, usam da meia verdade, alardeiam contradições inexistentes, concluem erradamente, fazem generalizações falsas, trocam palavras dos textos originais por outras, caluniam, arrotam que sabem muito de Espiritismo, mas não sabem, usam da ironia, do sarcasmo e de insinuações maliciosas. Neste contexto, a questão da vida em Marte pareceu ser aos críticos do Espiritismo uma ótima oportunidade para atacar a Doutrina, gritando aos quatro ventos aquilo que seria uma profunda contradição: as fotos de Marte e as descrições mediúnicas e a consequente “prova” do fracasso da Doutrina Espírita. Entretanto, revelamos ao leitor que o verdadeiro fracasso não está na Doutrina Espírita, mas sim nesses argumentos de ataque que se alimentam de analises superficiais. A verdade é que, às imagens de Marte trazidas pelas sondas, robôs ou telescópios não tem o poder para desacreditar ou contradizer a Doutrina Espírita já que estas máquinas foram criadas apenas para ver elementos com a mesma materialidade do Planeta Terra e não a imensa diversidade de vida que pulsa em outros níveis de existência. Lembrando o Livro dos Espíritos na questão 55: São habitados todos os globos que se movem no Espaço? E a resposta foi Sim.


           
(1)   Este texto parte do pressuposto que a NASA não está escondendo nada do público.
(2)   Nos comentários de Kardec na questão 188 do Livro dos Espíritos: “De todos os globos que constituem o nosso sistema planetário, segundo os Espíritos, a Terra é daqueles cujos habitantes são menos adiantados, física e moralmente: Marte lhe seria ainda inferior...”.
(3)   Nos livros Cartas de uma Morta pelo espírito Maria João de Deus e Novas Mensagens pelo espírito Humberto de Campos, ambos psicografados por Chico Xavier ou também no livro Urânia de Camille Flammarion.
(4)   Todos os grifos são meus.
(5)   Acreditar que a encarnação nos diferentes mundos somente seja possível no mesmo nível da materialidade terrena é o mesmo do que acreditar que no Universo inteiro somente a Terra tenha vida.
(6)   No livro Cartas de uma Morta: “... ligeiras protuberâncias a guisa de asas que lhes prodigalizavam interessantes faculdades volitivas”.
(7)   No livro Novas Mensagens: “... entendendo perfeitamente as ideias dos estudiosos que as expunham através da linguagem universal do pensamento”.
(8)   No livro Novas Mensagens: “... o problema da alimentação essencial, através das forças atmosféricas, já foi resolvido, sendo dispensável aos seus habitantes felizes a ingestão das vísceras cadavéricas dos seus irmãos inferiores...”.
(9)   Se descrevêssemos na Idade Média, um mundo com a presença da matéria e energias escuras, descobertas pela Ciência atual, este mundo seria, quem sabe, fantasioso demais para ser verdade.
(10)      No livro Cartas de uma Morta no item Grande Espiritualidade: “A vibração de paz e de harmonia que ali se experimenta, irradiam aos corações, felicidades nunca sonhadas na Terra. A mais profunda espiritualidade caracteriza essa humanidade, rica de amor fraterno e respeito ao Criador”.
(11)     No livro Novas Mensagens no capítulo Marte: “Não conhecem os fenômenos da guerra e qualquer flagelo social, seria entre eles, um acontecimento inacreditável”.
(12)     Nos comentários a questão 58 do Livro dos Espíritos.
(13)     No livro Urânia na terceira parte item 03, encontramos a seguinte passagem sobre as habitações de Marte: “Vivemos principalmente na atmosfera e não temos habitações de pedra, de ferro e de madeira” sugerindo ao leitor outro tipo de materialidade.
(14)     Não sabermos as causas profundas que determinam uma civilização sutil utilizar um planeta material, da mesma forma não sabemos o porquê dos espíritos errantes se utilizarem de planetas bem materiais para habitação temporária, o fato é que não sabemos muito menos os críticos do Espiritismo, todas as Leis da Natureza que regem as interações entre os diversos níveis do real.
(15)      Existe também a indicação de um mar em Marte no livro Cartas de uma Morta tendo uma natureza menos densa. Isto indicaria a possibilidade do deste mar ser igualmente fluídico: “Vi oceanos, apesar da água se me afigurar menos densa...”.
(16)     Evangelho Segundo o Espiritismo em Progressão dos Mundos no capítulo Há Muitas Moradas na casa de Meu Pai.
(17)     Segundo a questão 22 do Livro dos Espíritos: “Mas a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil, que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria. Para vós, porém, não seria”.
(18)     Ver item 02.
(19)     Sobre a descrição de Vênus na Revista Espírita de outubro de 1862, ditado pelo espírito Georges, Kardec escreve: “Por certo esta descrição de Vênus não tem nenhum dos caracteres de autenticidade absoluta; assim só a damos a título hipotético”.
(20)      Texto extraído da Revista Espírita de março de 1858 em Júpiter e alguns outros mundos.
(21)     O fato dos Espíritos não entrarem em detalhes sobre o estado físico e moral dos diferentes mundos na questão 182 do Livro dos Espíritos, não impediu de Kardec receber através dos médiuns, mensagens mediúnicas relatando detalhes destes mundos. Isto não é nenhuma contradição, pois sempre teremos espíritos dispostos a falar sobre tudo, importa sabermos através da análise criteriosa, se a mensagem é falsa, verdadeira ou hipotética.
(22)     A Revista Espírita foi uma publicação mensal sob a direção de Allan Kardec entre os anos 1858 e 1869
(23)     A análise de centenas de comunicações revela o caráter investigativo de Kardec.

Fausto Fabiano da Silva
BIBLIOGRAFIA
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 67 ed. São Paulo: Ed. Lake, 2007.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 260 ed. Araras: Ed. IDE.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Março de 1858, Araras, SP: Ed. IDE, 2001.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Outubro de 1860, Araras, SP: Ed. IDE, 1993.
KARDEC, Allan. Revista Espírita. Agosto de 1862, Araras, SP: Ed. IDE, 1993.
XAVIER, Francisco Cândido. Cartas de Uma Morta. 11ed. São Paulo: Ed. Lake,1990.
XAVIER, Francisco Cândido. Novas Mensagens. 6 ed. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1978.
CAMILLE, Flammarion. Urânia.Trad. de Almerindo Martins de Castro. 9. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
             



segunda-feira, 2 de novembro de 2015

 SOBRE A GERAÇÃO ESPONTÂNEA

Publicado na RIE novembro de 2015


                   A Teoria da Geração Espontânea ou abiogênese é a crença na origem do ser vivo sem que este precise de pais biológicos para existir.  Por exemplo, acreditar que larvas se originariam simplesmente de carnes em putrefação ou esperar que seres vivos apareçam através da ativação da matéria inanimada. Segundo José Luis Soares, na teoria da geração espontânea: o “calor, a umidade e o lodo poderiam constituir-se em elementos fundamentais para a ativação da matéria bruta” (1), por isto, por exemplo, que Jan Baptiste van Helmont (2) ensinava a obtenção de escorpiões e ratos a partir camisolas suadas em lugares escuros e úmidos.
                   A idéia da geração espontânea pode nos parecer atualmente até ridícula, porém, foi aceita como hipótese possível da Antiguidade até o século XIX, quando o biólogo Louis Pasteur a questionou de maneira definitiva com suas experiências com o frasco de “pescoço de cisne” (3) de modo que, retirando o problema da origem dos primeiros seres vivos em épocas primordiais, sabemos que todas as criaturas vivas, inclusive as microscópicas, se originam de outras pela reprodução. Entretanto, é um erro pensarmos que logo após os experimentos de Louis Pasteur, a idéia da geração espontânea tenha desaparecido completamente da mentalidade do homem do século XIX, já que é necessário certo tempo para que as ideias novas se estabeleçam e as antigas tenham ido embora, assim, não é estranho que Allan Kardec tenha defendido a abiogênese para seres orgânicos simples (4), porém, nunca abordou o tema de forma categórica, ao contrário, tratou da questão como uma hipótese (5).
                   Sendo compreensível a opinião de Kardec sobre a geração espontânea, qual era o posicionamento dos Espíritos que trabalhavam junto ao Codificador? Iluminar este ponto é importantíssimo devido à alegação de alguns críticos que afirmam terem sido os Espíritos da Codificação a favor da Geração Espontânea, na questão 46 do Livro dos Espíritos.
                   Para compreendermos o Espiritismo é um erro analisar a questão 46 ou outra, de maneira isolada. Para sabermos o que realmente os Espíritos desejaram expressar devemos ir para além da questão 46 para depois, apenas depois, retornarmos a ela.
                   A teoria da geração espontânea pressupõe que os seres vivos, surgidos desta maneira, não tenham nenhuma relação entre si, já que não teriam nenhuma forma de parentesco, seriam independentes, pois na ausência de pais, não poderiam ser parentes. Entretanto, os Espíritos da Codificação revelam que na natureza, as espécies mais diferentes guardam relação entre si, como fica evidente neste trecho, da questão 589 do Livro dos Espíritos: “Tudo em a Natureza é transição, por isso mesmo que uma coisa não se assemelha a outra e, no entanto, todas se prendem umas às outras” (6) (grifo meu). Como vemos, se tudo na natureza tem pontos de contato até as coisas mais díspares, é porque os seres vivos não nascem por geração espontânea e sim pela reprodução. Outra questão útil para se analisar é a 53 “a” do Livro dos Espíritos onde foi perguntado se os diferentes tipos de homens (7) que surgiram a milhões de anos atrás eram espécies distintas e a resposta dos Espíritos foi: “Certamente que não; todos são da mesma família. Porventura as múltiplas variedades de um mesmo fruto são motivo para que elas deixem de formar uma só espécie? e por fim a questão 49 do Livro dos Espíritos onde a ideia da reprodução é bem visível: Se o gérmen da espécie humana se encontrava entre os elementos orgânicos do globo, por que não se formam espontaneamente homens, como na origem dos tempos? R: “O princípio das coisas está nos segredos de Deus. Entretanto, pode dizer-se que os homens, uma vez espalhados pela Terra, absorveram em si mesmos os elementos necessários à sua própria formação, para os transmitir segundo as leis da reprodução. O mesmo se deu com as diferentes espécies de seres vivos” (Grifo meu). Nesta última questão é interessante notar que os espíritos não entraram em detalhes sobre o início das coisas, apenas disseram “uma vez espalhados”, nem disseram como teria sido a absorção dos elementos necessários à formação do homem, porém, como tudo na natureza tem pontos de contato, estes elementos apenas poderiam vir de outros seres vivos, ancestrais do homem e não por geração espontânea, além disso, palavras como “transição”, “todas se prendem umas às outras”, “leis da reprodução” e “família” remetem a conceitos atuais em Biologia e Genética, trazendo a Doutrina Espírita para o mundo contemporâneo o que afasta a hipótese dos Espíritos terem defendido a Teoria da Geração Espontânea.
                 Uma vez feito estas análises preliminares chegamos à questão 46 do Livro dos Espíritos: “Ainda há seres que nasçam espontaneamente? Sim, mas o gérmen primitivo já existia em estado latente. Sois todos os dias testemunhas desse fenômeno. Os tecidos do corpo humano e do dos animais não encerram os germens de uma multidão de vermes que só esperam, para desabrochar, a fermentação pútrida que lhes é necessária à existência? É um mundo minúsculo que dormita e se cria.”
                  Ao analisarmos a resposta dos espíritos, percebemos que ela não diz respeito a Teoria da Geração Espontânea.  É fácil entender isto após analisar o tipo de exemplo que os espíritos deram: vermes que desabrocham na fermentação pútrida dos cadáveres. Ora, se tudo na natureza tem pontos de contato, descartada está a Geração Espontânea permanente, então a palavra “verme” não pode se referir aos seres macroscópicos que comem os cadáveres, já que estes se originam das moscas e não estão dentro do corpo humano, aguardando a morte dos tecidos para desabrochar. As coisas que estão dentro dos órgãos são multidões de bactérias que participam do processo de putrefação, principalmente as intestinais (8) e é neste sentido que se deve entender a palavra verme.
                Observamos que os espíritos não se referem à Teoria da Geração Espontânea na questão 46 do Livro dos Espíritos, mas sim, a fenômenos de aparecimento e desenvolvimento de seres vivos sem causa exterior aparente, sem a intervenção do homem, ou que não estejamos esperando. Podemos citar outros fenômenos que se encaixam na frase: “É um mundo minúsculo que dormita e se cria” como o convívio durante anos com vírus patológicos que ficam encubados (dormindo) de forma latente, encobertos, ocultos, para se reproduzirem em certas ocasiões ocasionando doenças como a herpes. As bactérias do mesmo modo, embora possam participar de outros processos enquanto o corpo está vivo, conservam a capacidade de tomar parte da decomposição em “segredo”, as ocultas, “esperando”, o sistema imunológico ausentar-se, na ocasião da morte, para se reproduzirem (desabrocharem) livremente pelo corpo.
                 No contexto integral da reflexão que fizemos até aqui, entendemos de maneira mais clara a resposta dos espíritos sobre a possibilidade do nascimento de seres de forma espontânea: “Sim, mas o gérmen primitivo já existia em estado latente”. Ora, a resposta foi afirmativa, porém com uma condição, o germe primitivo teria que existir com antecedência, ou seja, o germe (estado rudimentar e originário de todo ser vivo, embrião) teria que já estar presente em forma latente para depois se multiplicar.  Notamos que os Espíritos não entraram em detalhes como este embrião, semente, ou germe teria aparecido, mas como vimos anteriormente, que a Doutrina Espírita não defende a Teoria da Geração Espontânea, mas justamente o contrário, defende as leis da reprodução, da descendência, da transição (evolução) e o parentesco entre as espécies, este “gérmen primitivo” apenas poderia ter se originado pela reprodução de outros seres vivos e estes de outros, assim sucessivamente até chegarmos ao tempo das primeiras eras do planeta Terra e por fim aos mistérios da Criação.


(1) Livro Biologia Básica de José Luis Soares.
(2) O Belga Jan Baptiste van Helmont foi médico, fisiologista, químico e bioquímico e grande propagador da Abiogênese do século XVII.
(3) O frasco de pescoço de cisne impede que os microorganismos do ar entrem em contato com um caldo que fica estéril após fervido. Somente se for quebrado o gargalo do frasco é que surgem microorganismos no caldo, indicando que estes se originam do exterior e não nascem espontaneamente da substancia fervida.
(4) No livro A Gênese de Allan Kardec, capítulo X em Escala dos Seres Orgânicos, item 25 está escrito: “De acordo com o que fica dito, percebe-se que não exista geração espontânea senão para os seres orgânicos elementares”.
(5) No livro A Gênese de Allan Kardec, capítulo X em Geração Espontânea, item 23: “No estado atual dos nossos conhecimentos, não podemos estabelecer a teoria da geração espontânea permanente, senão como hipótese, mas como hipótese provável e que um dia, talvez, tome lugar entre as verdades científicas incontestes”.
(6) Kardec indaga nesta questão se a planta carnívora (dioneia) seria uma espécie de transição entre as plantas e os animais, revelando que o assunto nesta questão era a dimensão biológica dos seres vivos e não a questão espiritual tratada em outras perguntas.
(7) Homo habilis, erectus, ergaster, heidelbergensis, floresiensis e neanderthalensis e o recentemente encontrado Homo naledi, são exemplos de ancestrais humanos cuja árvore genealógica confirma antepassados comuns.
(8) No endereço: http://gizmodo.uol.com.br/corpo-depois-morte/ encontramos informações sobres às bactérias intestinais na ocasião da morte: “De longe, a maior dessas comunidades vive no intestino, lar de trilhões de bactérias que pertencem a centenas ou milhares de espécies diferentes”, mais adiante outra passagem: “A maioria dos órgãos internos são desprovidos de micróbios quando estão vivos. Pouco depois da morte, no entanto, o sistema imunológico para de funcionar, deixando que eles se espalhem livremente por todo o corpo”, E finalmente neste outro trecho: “Uma vez que a autodigestão se inicia e a bactéria começa a escapar do trato gastrointestinal, a putrefação começa”.


Fausto Fabiano da Silva
contextoespirita.blogspot.com

BIBLIOGRAFIA

KARDEC, Allan. A Gênese. 1ed. Rio de Janeiro: Ed. León Denis, 2008.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 67 ed. São Paulo: Ed. Lake, 2007.
SOARES, José Luis. Biologia Básica. 2 ed. São Paulo:  Ed. Scipione, 1988.
COSTANDI, Moheb. Tudo o que acontece com o corpo após a morte. Disponível em: http://gizmodo.uol.com.br/corpo-depois-morte/ . Acesso em 24 ago. 2015.






sábado, 5 de setembro de 2015

Da proibição Bíblica para quem consulte os mortos

                                                      DA PROIBIÇÃO BÍBLICA
                                             PARA QUEM CONSULTE OS MORTOS
                   
                                             (Publicado na RIE de setembro de 2015)


               Para começar a responder qualquer crítica contra o Espiritismo quando esta crítica envolve a citação de um livro considerado sagrado por uma comunidade religiosa, devemos lembrar qual é a base da autoridade da Doutrina Espírita. Primeiramente vem da razão: "ao qual cumpre se submeta, sem exceção, tudo o que venha dos Espíritos. Toda teoria em manifesta contradição com o bom-senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos já adquiridos, deve ser rejeitada, por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura" (1). Depois, do ensino dos Espíritos, passado por certos critérios, explicados nesta frase de Kardec: Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares (2). Portanto, criticar a Doutrina Espírita citando textos religiosos, no caso em questão a Bíblia, não faz nenhum sentido para os espíritas, pois o Espiritismo não se baseia na Bíblia e sim na razão e no Ensino dos Espíritos. Entretanto, algumas pessoas poderiam acreditar que a Doutrina Espírita se basearia na Bíblia ou teria este livro como referência, já que existe o Evangelho Segundo o Espiritismo entre os livros publicados por Kardec. Esta ideia não é correta, já que foram os Espíritos da Codificação que citaram Jesus e revelaram como verdadeira a sua moral: “Os Espíritos vêm não só confirmá-la, mas também mostrar-nos a sua utilidade prática” (3), e é por causa disto que o olhar espírita se voltou para os evangelhos, e não porque eles estavam na Bíblia. Desta maneira, compreende-se por que o terceiro livro da Codificação é o Evangelho Segundo o Espiritismo e não o Espiritismo segundo os Evangelhos, muito menos o Espiritismo segundo a Bíblia. E a reflexão exposta até aqui serve de resposta a qualquer indagação sobre divergências entre a Bíblia e o Espiritismo ou entre este e a Teologia Cristã.
               Todo espírita deve saber que a Doutrina Espírita tem vocação pela verdade, encontre-se ela onde estiver. Desta maneira, podemos citar qualquer trecho, de qualquer livro, desde que se entendam estes trechos ou capítulos como verdadeiros ou de interesse doutrinário. Caem por terra, portanto, as críticas contumazes de que o Espiritismo pegaria apenas o que lhe interessa da Bíblia e deixaria o resto. Ora, se o Espiritismo se baseasse na Bíblia e principalmente na Teologia Cristã, esta crítica teria razão de ser, mas a Doutrina Espírita se baseia na razão, no bom senso e na instrução dos Espíritos, de modo que não há nenhuma contradição em  encontrar referências evangélicas nas Obras Básicas e ao mesmo tempo afirmar o equívoco de determinadas passagens. Dentre estas últimas, tomemos por exemplo Eclesiastes 9:5, muito usada para negar a comunicação mediúnica com aqueles que já morreram: “Por que os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, mas a sua memória fica entregue ao esquecimento”.
                 Todo espírita também deve saber que a Doutrina Espírita não está numa posição de inferioridade em relação à Teologia Cristã, por isto os espíritas não precisam correr para dar explicações sobre esta ou aquela passagem bíblica que em tese estaria em desacordo com o Espiritismo. Ora, se as explicações existem é por um motivo mais profundo, revelado neste magnífico trecho do Evangelho Segundo o Espiritismo: “Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas hão de ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos” (4). Por isto Kardec escreveu:“Por bem largo tempo, os homens se têm estraçalhado e anatematizado mutuamente em nome de um Deus de paz e misericórdia, ofendendo-o com semelhante sacrilégio. O Espiritismo é o laço que um dia os unirá, porque lhes mostrará onde está a verdade, onde o erro” (5).
                 Percebemos o compromisso que o Espiritismo tem com a verdade, de modo que a elucidação sobre trechos bíblicos, quando couber, será sempre do ponto de vista espírita, e não estará necessariamente em concordância com a  teologia católica ou das igrejas evangélicas. É por isto que Kardec, quando escreveu sobre a proibição de Moisés na evocação dos mortos, não se preocupou em fazer um tratado teológico, não porque não entendesse de Bíblia ou de Teologia, mas porque não era necessário. Quem tem de apresentar coerência com a Teologia Cristã são os teólogos de suas respectivas religiões, não o espírita, pois a coerência deste é com a Doutrina Espírita e não com as teologias cristã, judaica ou muçulmana  que, aliás, estão muitos longe  da concordância mútua em inúmeros aspectos. Daí ser-nos suficiente  a resposta de Kardec (6) à proibição de Moisés para quem consulte os mortos.
               A vocação pela verdade e o fato de o conhecimento espírita ter implicações ou desdobramentos que tocam grande parte das Ciências (7) levam naturalmente à compreensão espírita dos textos sagrados. Por isto, expor (8) o ponto de vista espírita, em concordância ou não com as interpretações teológicas, não é nenhum tipo de intromissão, muito ao contrário, é uma responsabilidade dos espíritas. Um louvável exemplo: temos hoje uma tradução do Novo Testamento realizada por um espírita (9). Outro: o esforço para tentar libertar as palavras hebraicas ou gregas dos seus significados teológicos tradicionais (10), adequando-as à compreensão espírita do mundo.
              A oposição ferrenha dos religiosos quando o assunto é comunicação mediúnica pode ocultar também o medo daquilo que os mortos poderiam revelar. Por exemplo, se eles começarem a falar de um Deus que não condena ninguém ao sofrimento por toda a eternidade? E se eles começarem a revelar que seremos julgados pela quantidade de amor que dermos ao nosso semelhante e não pelo nome do Deus que professamos na Terra? E se eles afirmarem que o diabo não existe e que o mal tem origem nas nossas imperfeições? E se revelarem que a Bíblia tem, sim, muitas verdades, mas os homens as distorceram em muitos pontos ou mesmo nunca a compreenderam em seu verdadeiro sentido? E se os espíritos falarem da reencarnação? E se assegurarem que Jesus é um ser cheio de glória, porém não é Deus? E se os mortos começarem a falar de um mundo espiritual, levando as pessoas a repensarem a sua fé? É assim que, para alguns, o melhor mesmo é que os mortos fiquem calados. Todavia, calar os espíritos é como desejar que as aves parem de cantar. Que o sol não nasça pela manhã. Que as flores nunca desabrochem ou ainda que as estrelas parem de brilhar. E da mesma maneira os espíritos, pertencendo irremediavelmente à realidade, não podem ser ignorados ou ocultados para sempre. Ainda bem...

(1) e (2) Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdução, Autoridade da Doutrina Espírita em Controle Universal do Ensino dos Espíritos.
(3)Livro dos Espíritos, Conclusão, item XVIII.
(4)Evangelho Segundo o Espiritismo, Prefácio.
(5)Livro dos Espíritos, Conclusão, item IX.
(6) No livro O que é o Espiritismo em Pequena Conferência Espírita, Kardec escreveu: “A proibição feita por Moisés tinha então a sua razão de ser, porque o legislador hebreu queria que o seu povo rompesse com todos os hábitos trazidos do Egito, e de entre os quais o de que tratamos era objeto de abusos. Não se evocavam  então os mortos pelo respeito e afeição tributados a eles, nem com o sentimento de piedade, mas, sim, como meio de adivinhar, como objeto de tráfico vergonhoso, explorado pelo charlatanismo e pela superstição; nessas condições, Moisés teve razão de proibi-lo. (...). Mais adiante Kardec continua: “Hoje as circunstâncias são outras, e a proibição de Moisés já não tem razão de ser”. Além disso, se a Igreja proíbe a evocação dos Espíritos, poderá também impedir que eles venham sem ser chamados?”.
(7) No livro A Gênese, Capítulo I, Caráter da Revelação Espírita, item 18 encontramos: “O Espiritismo, tendo por objeto o estudo de um dos elementos constitutivos do Universo, toca forçosamente na maior parte das ciências”. É assim que, o estudo através do Espiritismo do elemento espiritual, pode influenciar o conhecimento acadêmico em diversas áreas. Por exemplo, a noção que o homem é um ser espiritual que evolui trazendo tendências de vidas passadas faz que historiadores espíritas não aceitem mais ideologias materialistas como as únicas capazes de explicar na sua totalidade, os acontecimentos históricos.
(8) A exposição das ideias espíritas quando o momento ou as circunstâncias forem favoráveis deve ser sempre com atitude respeitosa, lembrando que nem todos vão concordar conosco.
(9) Novo Testamento traduzido por Haroldo Dutra Dias.
(10) No livro Analisando as Traduções Bíblicas de Severino Celestino da Silva.
 

Fausto Fabiano da Silva
faustofabianodasilva@yahoo.com.br

BIBLIOGRAFIA
KARDEC, Allan. Evangelho Segundo o Espiritismo. 85. ed. Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1982.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 67. ed. São Paulo: Ed. Lake, 2007.
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo. Araras: Ed. Instituto de Difusão Espírita.
KARDEC, Allan. A Gênese. 1ed. Rio de Janeiro: Ed. León Denis, 2008.
O Novo Testamento. Tradução de Haroldo Dutra Dias. 1. ed. Brasília: Ed. FEB, 2013.
SILVA, Severino Celestino. Analisando as Traduções Bíblicas. 6. ed. João Pessoa: Ed. Ideia, 2009.
BÍBLIA. Eclesiastes. Português. Bíblia de Estudo: Aplicação Pessoal. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição rev. e corrigida. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2003.